ESPIRITUALIDADE E DEPENDENCIA QUIMICA

A misteriosa sobreposição

O uso de drogas e a espiritualidade têm uma história curiosamente entrelaçada. Algumas religiões evitam ou proíbem o uso de certas drogas como por exemplo, o uso de álcool é proibido pelo Islamismo e Mormonismo. O antigo aforismo “spiritus contra spiritum” insinua uma incompatibilidade mútua entre o álcool e a espiritualidade, ou seja, um combatendo o outro.
A dependência de substâncias é, por definição, um processo segundo o qual a droga desloca as antigas prioridades, relações e valores, progressivamente, tornando-se a preocupação central da vida de uma pessoa, como uma idolatria (1).
Por outro lado, várias substâncias foram especificamente usadas como veículos de acesso sagrado, por várias culturas. Entre essas substâncias podemos citar derivados do ácido lisérgico, Psilocybe e vários outros gêneros de cogumelos, cactos como o peyote, contendo mescalina, espécies de erva como a erva do diabo, e muitas outras (2). As drogas psicoativas ocupam também um lugar de honra em sacramentos e rituais de religiões do mundo, por exemplo, o vinho no Judaísmo e Cristianismo, o tabaco em religiões nativas americanas.
É como se, sob um ponto de vista religioso, houvesse algo significativo sobre “spírits” (em inglês, bebida alcoólica) e outras drogas psicoativas.
Avram Goldstein, cujo trabalho clássico permitiu-nos compreender a ação dos opióides endógenos, estudou também “excitações na música,” a experiência comum da sublimação e os calafrios que ocorrem em momentos previsíveis na música clássica. Em uma experimentação duplo-cego, concluiu que o naloxone seguramente aboliu essas manifestações, sugerindo que elas são mediadas por endorfinas (3).
Além do mais, a espiritualidade tem sido considerada desde muito tempo como tendo
importância central no tratamento de e na recuperação de dependentes (4). Alcoólicos Anônimos (AA) e outros programas de mútua-ajuda estabelecidos mundialmente, têm a recuperação baseada nos “Doze Passos” que, fora de dúvida, concentra-se na espiritualidade, enfatizando a confiança em um “Poder Superior” e a prática da prece e da meditação para promover uma experiência religiosa e um “contato consciente com Deus.” (5)

Espiritualidade e Religião

Nas últimas décadas os termos “espiritualidade” e “religião” têm se diferenciado na sua conceituação. É comum, por exemplo, entre os americanos, descreverem-se a si mesmos como “espirituais mas não religiosos”.
Analisando essa diferenciação, os psicólogos colocam a espiritualidade como uma característica dos indivíduos, um complexo multidimensional latente, como personalidade ou saúde (6).
Por outro lado a Religião tem sido caracterizada como um fenômeno social, definido por limites particulares como crença, prática de preceitos estipulados e congregação social.
Religiosidade, a extensão do envolvimento pela religião institucional, é um aspecto da espiritualidade do indivíduo. Esta distinção tem sido particularmente ressaltada em AA como um programa auto-avaliado em espiritual mas não religioso (7).

O que já se sabe já sobre
espiritualidade e dependência?

Não são poucas as publicações científicas e profissionais sobre espiritualidade e dependência. Nossa bibliografia neste assunto contém quase 2.000 referências (8). Com relação à espiritualidade, sabe-se mais sobre o álcool do que com outras drogas, mas a literatura é rica e cresce rapidamente (9).
O Fetzer Institute, em colaboração com o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism solicitou e financiou uma série de estudos científicos sobre alcoolismo e espiritualidade.

Uma relação protetora

Um resultado de pesquisa particularmente importante é a relação inversa entre a religiosidade pessoal e o uso de álcool / droga e problemas associados. Adultos e adolescentes mais religiosos têm menos chance de fazer ou vir a fazer uso abusivo de álcool ou outras drogas e entrar em dependência. Este é um dos mais consistentes fatores de proteção de risco documentados pela literatura, semelhante em magnitude, à história familiar do abuso de substâncias. As razões para este pequeno mas consistente relacionamento, estão obscuras.
Os níveis de risco para o transtorno de uso de substâncias também variam de acordo com as diversas religiões, os mais baixos níveis observados nas religiões que proíbem o uso claramente, sugerindo a influência das normas religiosas nessa questão.

Espiritualidade entre dependentes em tratamento

Reciprocamente, americanos em tratamento para transtorno do uso de substâncias referem níveis de religiosidade e práticas espirituais muito baixas em relação à população geral do país, apresentando também níveis baixos quanto ao significado e propósitos de vida (10).
Atualmente sabe-se pouco sobre as mudanças que ocorrem especificamente na área da espiritualidade entre os pacientes no curso da recuperação. Os dados disponíveis sugerem um aumento do interesse e da prática espirituais enquanto diminui a dependência por substâncias. Não está claro se o desenvolvimento espiritual precede, é a causa, resultado ou subproduto da diminuição do uso e dependência de substância.
Certamente, dentro dos Doze Passos de AA, o desenvolvimento e a prática espirituais são tidos como essenciais para a recuperação (7), entretanto essa ligação causal ainda não pode ser evidenciada usando-se metodologia científica apropriada (11).
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Intervenções espirituais

Se o desenvolvimento espiritual pode promover a sobriedade e recuperação em dependentes, é natural que seja considerado como um tratamento suplementar.
Nos programas americanos de tratamento os pacientes são freqüentemente orientados para o ingresso em AA ou outras irmandades de Doze Passos como Narcóticos Anônimos ou semelhante.
Sobre os programas dos Doze Passos, a maioria dos pesquisadores tem focalizado o AA (12). Como no caso de envolvimento religioso, estudos consistentes indicaram uma relação entre a freqüência em AA e abstinência, particularmente após o tratamento da dependência (13-15). Uma aparente exceção a isso é sobre uma frágil manutenção da abstinência quando a freqüência em AA foi imposta pela Justiça, pelo empregador, etc. (16).
Um estudo mostrou que os resultados do tratamento não devem ser esperados pela simples freqüência voluntária em AA, mas pelo grau de envolvimento do paciente nas atividades de AA e do seu trabalho com os Doze Passos (17).
Apesar da relação positiva e consistente entre o envolvimento voluntário em AA e a abstinência, muito pacientes não aderem aos grupos de Doze Passos durante o seu período de tratamento, sendo improvável que o façam após esse período (18). Por essa razão foram desenvolvidas várias intervenções no sentido de encorajar a freqüência em AA (19).
O estímulo do médico atendente, por ex., pode influir no envolvimento com AA (20).
Um método de aconselhamento para o Programa dos Doze-Passos foi especificamente desenvolvido para encorajar o envolvimento em AA e ajudar os pacientes a trabalhar os primeiros passos do programa (21).
Em estudos clínicos a terapia dos Doze Passos aumentou o envolvimento em AA proporcionando reduções na freqüência e quantidade de bebida ingerida comparáveis, pelo menos, aos mais modernos tratamentos comportamentais existentes. A taxa de abstinência total para o álcool, num período de três anos, foi cerca de10% mais elevada entre os indivíduos do grupo dos Doze Passos do que em outros grupos (22-23). Resultados semelhantes foram obtidos em estudos clínicos com grupos de tratamento por uso de cocaina (24).
Os efeitos de práticas espirituais específicas sobre o uso de substâncias são menos conhecidos. O exercício da meditação tende a ser inversamente proporcional ao uso de álcool, tabaco e outras drogas de abuso, e a prática da meditação, em muitos trabalhos, mostrou reforço à abstinência após o tratamento. Em um trabalho randomizado com pacientes pós-tratamento, observou-se a não interferência da prece de terceiros sobre eles (25). Os efeitos especificamente relacionados à prece individual, como recomendada em AA, são desconhecidos.

O que deveríamos saber mais a respeito?
Explicando os achados consistentes correlacionados

Como a religiosidade protege contra os problemas do uso de substâncias?
Existem fortes evidências de que a religiosidade está associada com baixos níveis do uso de substâncias e que a religiosidade e a espiritualidade apresentam-se em níveis reduzidos nas pessoas com transtornos por uso de substâncias, porém, não está claro por que isso acontece. Embora haja alguma evidência de que a religiosidade possa proteger as pessoas após o período de uso de substâncias, é igualmente possível que o uso de substâncias ou dependência possam levar a uma diminuição da religiosidade e da espiritualidade.
As diferenças entre as várias religiões (baixos índices de uso de substâncias em religiões que proscrevem tal uso) sugerem um efeito direto das normas e preceitos religiosos contra o uso de substâncias. Não são claros os efeitos em outras dimensões espirituais.

A espiritualidade no curso da recuperação

A mudança espiritual é causa, efeito da recuperação ou ela ocorre de forma casual (10)?
Segundo a ideologia dos Doze Passos e depoimentos de muitos indivíduos que ganharam a sobriedade com o programa dos Doze Passos, ou sem esse programa, o desenvolvimento espiritual é o mecanismo que mantém a sobriedade, definida como abstinência e bem-estar.
Até hoje os estudos científicos sobre o processo de recuperação demonstraram-se incapazes para verificar esta proposição. As pesquisas sobre os tratamentos Psico-Sociais (por ex., a terapia cognitiva comportamental (26)) mostraram que tratamentos que demonstraram eficiência não foram necessariamente aplicados segundo a teoria.
Estudos longitudinais com estimativas multidimensionais de espiritualidade são necessários para determinar se as mudanças, particularmente as dimensões da espiritualidade (crenças, valores, relacionamentos com Deus, relacionamento com a comunidade espiritual, experiências espirituais subjetivas, auto-transcedência etc.) assumem um papel intrinsecamente causal na recuperação e independentes do programa dos Doze Passos.

Intervenções espirituais

Qual é o potencial terapêutico das intervenções espirituais na prevenção e tratamento dos transtornos de uso de substâncias? Apesar da potencialidade clínica quanto ao trabalho de mudanças espirituais, estudos científicos sobre as intervenções nesse sentido, com a notável exceção da literatura sobre os Doze Passos. têm sido extremamente limitados, e o número de trabalhos de alta qualidade com metodologia bem controlada é diminuto. Considerando-se que a espiritualidade constitui um conjunto multidimensional, há possibilidade de múltiplas abordagens que poderiam ser desenvolvidas e testadas. As estratégias para meditação constituiriam um bom exemplo de abordagem do assunto.
Movimentos ligados a religiões e política obtêm financiamento público. Entretanto os Doze Passos constituem um exemplo de que até um modelo explicitamente teista pode separar-se da religião organizada e atrair ateus ou agnósticos a participar do seu programa (27). Uma terapia espiritualmente orientada possibilita uma boa aproximação do indivíduo à suas próprias crenças.

Desentranhando o Complexo da Espiritualidade

Quais as dimensões da espiritualidade que são fatores relevantes de proteção, fatores de risco, mediadores de mudanças e conseqüências da história natural e tratamento clínico da dependência?
A mesma palavra "espiritualidade" deveria ser usada cautelosamente neste contexto uma vez que essa palavra tem significados diferentes para pessoas diferentes.
Embora existam instrumentos de avaliação para as várias dimensões de espiritualidade, a maioria dos estudos relacionados usou avaliações simples de religiosidade e muito menos foram avaliados outros parâmetros da espiritualidade que não tivessem a haver com a crença ou com serviços religiosos.
Os futuros estudos sobre os fatores espirituais nas adicções deveriam enfocar-se nas múltiplas dimensões da espiritualidade caracterizando os hipotéticos efeitos dentro das suas dimensões específicas. Complementarmente, serão necessários muitos trabalhos de boa metodologia para desenvolver a nossa compreensão sobre a estrutura dimensional da espiritualidade e a nossa possibilidade de avaliar essas diversas dimensões.

Conclusão

Os trabalhos de pesquisa sobre a espiritualidade e adicção estão em estágio inicial, com os recentes desenvolvimentos em metodologia. Evidências sustentam uma relação inversa entre o uso de substâncias com religiosidade ou certas práticas espirituais.
A abstinência após o tratamento pode ser associada à freqüência em Alcoólicos Anônimos, prática dos Doze Passos e exercícios de meditação.
Trabalhos em andamento ou futuros estudos sobre espiritualidade e adicção poderão trazer novos conhecimentos úteis para a prevenção e tratamento.

segunda 30 abril 2012 14:31


Cada Um à Sua Maneira

Cada um à sua maneira

"A noção de um despertar espiritual toma formas diferentes em cada pessoa diferente que encontramos na irmandade."
Texto Básico, p. 57

Embora todos nós trabalhemos os mesmos passos, cada um de nós experimenta à sua maneira o despertar espiritual que deles resulta. A forma que esse despertar espiritual assume nas nossas vidas vai variar, dependendo de quem so...mos. Para alguns de nós, o despertar espiritual prometido no 12º Passo vai resultar num interesse renovado por religião ou misticismo. Outros irão despertar para uma compreensão das vidas daqueles à sua volta, sentindo empatia talvez pela primeira vez. Ainda outros irão ver que os passos despertaram-nos para os seus próprios princípios morais ou éticos. A maioria de nós experimenta o despertar espiritual como uma combinação de todas estas coisas, cada combinação tão única quanto o indivíduo que a sente.
Se existem tantas variedades diferentes de despertares espirituais, como é que iremos saber se de facto tivemos um? O 12º Passo dá-nos dois sinais: encontrámos princípios capazes de nos orientar bem, o tipo de princípios que queremos praticar em todas as nossas actividades. E começámos a preocupar-nos o suficiente com outros adictos para partilharmos livremente com eles a experiência que tivemos. Sejam quais forem os pormenores do nosso despertar, é-nos dado a todos a orientação e o amor de que precisamos para viver vidas preenchidas e espiritualmente orientadas.

Só por hoje: Seja qual for a sua forma particular, o meu despertar espiritual tem-me ajudado a preencher o meu lugar no mundo com vida e amor. Sinto-me grato por isso.

terça 03 abril 2012 09:49


Interiores e Exteriores


Interiores e exteriores
"O nosso verdadeiro valor está em sermos nós próprios." Texto Básico, pp. 116-117

... Ao trabalharmos os passos somos lançados na descoberta de algumas verdades básicas sobre nós mesmos. O processo de abrir os nossos segredos e de os expor, e de procurar o nosso carácter, revela-nos a nossa verdadeira natureza. À medida que vamos tomando consciência de nós mesmos, torna-se necessário tomarmos a decisão de sermos simplesmente quem somos. Talvez queiramos dar uma olhadela ao que aparentamos ser perante os nossos companheiros de NA e perante o mundo, e ver se coincide com aquilo que descobrimos dentro de nós. Será que aparentamos que nada nos chateia quando, na realidade, somos muito sensíveis? Será que escondemos as nossas inseguranças com piadas de mau gosto, ou será que partilhamos os nossos medos com alguém? Será que, com quase quarenta anos e sendo mais ou menos conservadores, vestimo-nos como um adolescente? Talvez queiramos dar mais uma olhadela àquelas coisas que julgávamos "não ser nós". Se calhar temos evitado ir a actividades de NA porque "não gostamos de multidões". Ou talvez tenhamos um sonho secreto de mudar de carreira, mas não metemos acção porque o nosso sonho "não era o certo" para nós. Conforme formos ganhando uma nova compreensão de nós mesmos, vamos querer ajustar o nosso comportamento de acordo com ela. Queremos ser exemplos genuínos de quem realmente somos.

Só por hoje: Vou verificar o meu exterior para ter a certeza que coincide com o meu interior. Vou tentar agir com o crescimento que adquiri em recuperação.

sábado 31 março 2012 07:38


DependÊncia QuÍmica - DoenÇa ou OpÇÃo?

 Um filósofo muito importante afirmou certa vez: "o homem está condenado a ser livre." Ele quis dizer que o homem é naturalmente livre, mas essa liberdade o condena a tomar decisões, fazer escolhas, opções pelo resto da vida. Quanto mais escolhas fazemos e nos responsabilizamos por elas, mais livres seremos. Quando mais culpamos os outros por nossas escolhas erradas, menos autônomos e mais dependentes do outro ficamos. Essa pergunta traz para perto a Filosofia e a Medicina e mostra como a dependência de drogas pode ser objeto dos mais variados campos do conhecimento. Aqueles que decidem consumir uma droga estão fazendo uma opção, uma escolha. É claro que muitos fatores contribuíram para que tal escolha se desse (as angústias da vida, a simples curiosidade, a influência de amigos, a vontade de buscar um jeito novo de divertir). Mas, a escolha, no final, foi da pessoa. Continuar usando drogas também é uma opção, mas cada vez menos. Isso porque o organismo vai se adaptando à presença da droga. Vai havendo modificações no cérebro. Quando o indivíduo fica sem a droga, passa a se sentir muito mal, desconfortável, irritado, deprimido, ansioso. O dependente acha que o único alívio possível é a continuidade do consumo. Conforme a dependência vai se instalando, a pessoa passa a abrir mão de coisas que antes eram muito importantes para ela. É o momento em que aparecem as brigas e discussões com a família, a piora no desempenho escolar, a venda de objetos para comprar drogas. Tudo passa a girar em torno do consumo de drogas. A partir desse ponto, o indivíduo não consegue mais ficar sem usar drogas. Não há mais OPÇÃO: o indivíduo não escolhe se vai usar drogas ou não. A doença lhe tirou essa liberdade. QUALQUER DOENÇA PSÍQUICA CONSISTE ACIMA DE TUDO NA PERDA DA LIBERDADE DE ESCOLHA. Portanto, a dependência não é uma opção. É uma condição patológica (uma doença) que tira a liberdade do indivíduo de optar! Perceber a presença da doença e se responsabilizar pelo tratamento é o primeiro passo em direção à recuperação. É preciso escolher a mudança e buscar ajuda para efetiva-la. Não resolve olhar o passado para achar um culpado. Deve-se pensar no futuro! Não existem culpados pela situação. Mas pode haver pessoas comprometidas com o processo de cura (o próprio dependente, sua família, os amigos, os profissionais da saúde). Afinal, se temos que estar condenados a alguma coisa nesse mundo, que seja apenas à liberdade!

terça 20 março 2012 07:29


Foto Sem Preço

quinta 15 março 2012 12:09


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